O número de novos registros de defensivos agrícolas no Brasil bateu mais um recorde em 2020. Foram 493 no total, entre produtos técnicos (de uso da indústria) e formulados (de uso dos agricultores), 4% mais que no ano anterior, quando o governo liberou 474 produtos. Do total, os aptos a chegarem às prateleiras somaram 321, e a maioria foi de químicos (226), mesmo diante da pressão de ambientalistas.

 

Em 2020, a receita com defensivos no país, considerando os produtos aplicados na lavoura, foi de US$ 12 bilhões, conforme estimativa preliminar do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal (Sindiveg). Com uma agricultura tropical, mais suscetível à aparição de pragas e doenças, o Brasil é um dos países que mais usam agrotóxicos nas lavouras.

 

Usados como ferramenta completar aos químicos, e provando serem cada vez mais eficientes para barrar a resistência de ervas daninhas e pragas, os defensivos biológicos vêm conquistando seu espaço. Nessa frente, o número de registros chegou a 95, quase o dobro de 2019. De baixo impacto para a saúde humana e para o ambiente, eles também são mais simples de se analisar. Enquanto um produto químico leva, em média, seis anos para ser avaliado pelos órgãos reguladores no Brasil (Ministério da Agricultura, Anvisa e Ibama), os biológicos levam um ano – e se tornaram “prioridade” do governo, como lembra Bruno Breitenbach, coordenador de Agrotóxicos e Afins do Ministério.

 

Para Gustavo Hermann, diretor comercial da Koppert Brasil, maior empresa de biológicos do país, em 2021, o ritmo de aprovações no segmento tende a se manter acelerado, em resposta à crescente necessidade dos produtores em adotar práticas mais sustentáveis.

 

Entre os agrotóxicos, o crescimento expressivo de registros continua entre os genéricos – ou seja, aqueles produzidos a partir de substâncias cuja patente já caiu. Com custo elevado de desenvolvimento, as novas moléculas foram apenas duas em 2020, que serviram de base para outros nove registros de formulados. “Foram dois ingredientes novos em 2020, o tolfenpyrad e o pyroxasulfone. São produtos mais modernos que, por força de lei, são menos tóxicos do que os já registrados”, disse Breitenbach.

 

A brasileira Ihara, controlada por sete empresas japonesas, é a detentora da patente do pyroxasulfone, produto que combate ervas daninhas e lhe rendeu quatro registros de formulações. Um ano antes, a empresa registrou também o dinotefuran, para controle de doenças fúngicas, que demandou investimentos de US$ 200 milhões em pesquisa e ficou dez anos na fila dos órgãos reguladores.

 

Entre os agrotóxicos aprovados no Brasil no ano passado, 15 foram considerados extremamente tóxicos pela Anvisa, ou 3% do total. A maior parte foi classificada como medianamente tóxica. Conforme o Ibama, quase metade dos produtos foi enquadrado como muito perigoso ao ambiente. Alguns vieram para suprir baixas no mercado. A principal foi a do paraquate, proibido pela Anvisa em 2017 e que não poderá mais ser usado na próxima safra. A agência permitiu o uso dos estoques na temporada 2020/21. “Quando se decidiu pelo banimento, foi previsto esse prazo para dar tempo de registrar alternativas, para o produtor conhecer e a indústria colocar à disposição”, afirmou Breitenbach.

 

A prioridade foi a aprovação de produtos à base de diquate, apontado como possível substituto do paraquate. “Não é o substituto perfeito, mas preenche a lacuna”, afirmou Breitenbach. Desde 2018, foram registrados 19 produtos técnicos e seis formulados à base de diquate.

 

A brasileira CCAB foi uma das empresas que obtiveram o registro em 2020, de uma solicitação feita em 2013. Eric Seban, CEO da CCAB, diz que os órgãos reguladores têm sido mais céleres na aprovação de genéricos e biológicos e que medidas desburocratizantes podem garantir novos avanços. Um sistema eletrônico de avaliação técnica integrada entre os órgãos de registro, medidas de autocontrole e responsabilização das empresas fabricantes poderiam ser ferramentas para caminhar nessa direção, segundo ele. Mais de 3 mil produtos técnicos e formulados seguem aguardando análise de algum dos três reguladores.

Fonte: Valor